Essa frase, da feminista Gloria Steinen, certamente ilustra muito bem o que é se definir feminista em um mundo que passa por mudanças e por uma grande onda de conservadorismo.

Talvez não consiga me lembrar o exato momento em que me identifiquei como feminista, mas me lembro de inúmeros momentos de raiva em que eu consegui enxergar muito bem porque o feminismo não só é necessário, como me libertou de várias amarras que eu nem sabia que possuía.

Graças ao feminismo e à compreensão de que meu lugar é onde eu quiser e de que ninguém tem o direito de me diminuir, fui capaz de levantar minha voz e dar um fim a ciclos de abusos em situações de trabalho ou mesmo em amizades com alguns homens. Ainda que eu entenda que sou uma pessoa privilegiada em vários sentidos, principalmente por ter tido acesso à educação e viver em uma cidade com uma qualidade de vida acima da média do país, o acesso à educação por si só não rompe com concepções enraizadas de que somos de alguma forma inferiores.

Por isso, é extremamente significativo que eu tenha sido convidada algumas vezes a falar em eventos justamente por eu ser quem eu sou e não a pessoa que a sociedade espera que eu seja. Por mais óbvio que isso possa parecer, não é óbvio para uma grande parte das mulheres, independentemente do seu nível cultural ou social, que elas têm o direito de não se submeterem a certas imposições.

O Brasil é um país de proporções continentais e com níveis de desigualdade sociais abissais, por isso, é compreensível muitas mulheres sequer tenham acesso à ideia de que podem ser independentes, pois não podem. Nesse sentido, como apontado pela cineasta Eliza Capai em seu documentário No Devagar Depressa dos Tempos, e pela quadrinista e pesquisadora Carolina Ito em sua HQ Estilhaços, ações sociais como o Bolsa Família propiciaram a emancipação de mulheres em situação de extrema pobreza nas cidades amparadas pelo projeto.

Ou seja, é um caminho longo e tortuoso para levar às mulheres a concepção de que são seres humanos com os mesmos direitos que seus companheiros. Mesmo não entrando nos méritos dos números, que são facilmente verificáveis em sites da ONU, IBGE, Secretarias de segurança pública dos estados e da OMS, não é possível ignorar que a violência contra a mulher opera em todos os âmbitos de nossas vidas, do momento que nascemos até o dia de nossa morte. E não se trata de fazer “um vestibular de sofrimento”, como já ouvi homens falarem, se trata apenas de ter direito a se desenvolver como um ser humano autônomo, com acesso a direitos básicos que ainda nos são negados.

Se existe algo que podemos fazer para ajudar mais mulheres a encontrarem sua voz e tomarem as rédeas de suas vidas é justamente inspirá-las por meio de exemplos práticos. Eu nunca imaginei que receberia mensagens de outras mulheres agradecendo por eu colocar em palavras aquilo que sentem e não conseguem expressar. Minha voz eu encontrei na escrita e é uma grande motivação saber que o meu discurso serve de inspiração para outras mulheres.

Outras mulheres, como as que conheci no evento organizado pelo site Juicy Santos no evento Mulheres que Causam, encontraram sua voz por meio do empreendedorismo, da literatura ou do esporte. Encontrar uma forma de superar os silenciamentos aos quais somos submetidas diariamente é desafiador, mas se não rompermos com esses silêncios, nada muda e mudanças são incômodas para quem goza de privilégios garantidos pela manutenção de um status quo que é hegemônico. Sobre isso, essa fala da mestre em filosofia política Djamila Ribeiro é extremamente necessária para a compreensão do que é o silenciamento de grupos minorizados e por que isso precisa mudar:

Por isso, quando penso no quanto somos ainda entendidas como histéricas, só posso pensar no quanto uma ideologia dominante se vale da ideia de que não temos o que falar e com isso, insiste em nos calar e nos dizer que nossa luta e inútil. Se valem de teorias, que sempre foram produzidas por integrantes de um grupo historicamente dominante, na tentativa de justificar que a busca por representatividade, por exemplo, seja ela nos espaços científicos, políticos ou na produção cultural, não passa de uma manobra de quem não possui identidade e precisaria de exemplos externos para se sentir representada, quando na verdade, se trata de uma luta por visibilidade em espaços que insistem em nos manter invisíveis.

Sei que esse texto não alcançará um número significativo de pessoas que talvez precisem entender que uma sociedade mais justa se constrói a partir de ações que viabilizem acesso a direitos iguais a todos os seus cidadãos. Isso passa por discussões em todos os âmbitos de nossas vidas, já que machismo e misoginia são problemas estruturais. Ainda assim, deixarei alguns links que podem ajudar aos interessados a refletirem sobre suas posturas e, quem sabe, mudá-las.

https://www.facebook.com/plugins/video.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Fjuicysantos%2Fvideos%2F1259948397374557%2F&show_text=0&width=560

Sobre a histeria de que somos acusadas, o filme Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures, 2016), possui várias cenas que ajudam a entender que não há nada de histérico em nossas ações, há apenas uma tentativa de nos fazer ouvir quando tantas pessoas insistem em querer que sejamos excluídas. Como mencionado por um dos atores, ao lembrar uma fala de Malcon X, estes espaços não nos serão entregues de boa vontade, é preciso toma-los à força. Em uma das cenas, a personagem interpretada por Taraji P. Henson, Katherine Johnson, é advertida por seu chefe por se ausentar todos os dias por cerca de 40 minutos em uma fase do projeto espacial da NASA que exigia dedicação integral de seus pesquisadores. Nesse momento, Katherine tem uma explosão que se fosse presenciada fora de contexto, seria rapidamente interpretada como uma atitude histérica. No entanto, o que o diretor do projeto não sabe, é que sendo negra nos anos 60, Katherine era vítima da segregação racial que previa uso de banheiros exclusivos para negros e estes se encontravam a uma distância muito grande de seu posto de trabalho. Ou seja, passando por uma situação de abuso todos os dias, precisando atravessar de um lado a outro, muitas vezes debaixo de chuva, todos os dias, apenas para poder usar o banheiro, quando é chamada a atenção, ela simplesmente expressa o que ninguém imaginava que acontecia a ela.

Essas microagressões que sofremos todos os dias, são acumuladas ao longo da vida e no momento que nos indignamos com elas, somos taxadas de loucas, agressivas, ainda que nenhum homem tenha morrido por isso, mas nós sejamos vítimas de crimes “passionais” em números assustadores anualmente.
https://www.facebook.com/plugins/video.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Fkaolcaradeboi%2Fvideos%2F1429598300406756%2F&show_text=0&width=400

Por isso, se meu discurso desagrada aos homens, eu repito mais uma dessas frases de efeito que ilustram o que penso: Não me expresso para que as pessoas que pensam diferente de mim concordem comigo, mas para as que pensam como eu saibam que não estão sozinhas. É graças a essa certeza que nos fortalecemos cada vez que encontramos exemplos de mulheres que romperam com as barreiras que lhes são impostas. É por meio da representatividade que eu percebo ser capaz de realizar feitos além daqueles que eu fui levada a acreditar que poderia.

Há algo de muito libertador em pensar na frase que diz que nunca é alto o preço a se pagar por pertencer a si mesmo, pois foi graças a ela que criei coragem pra enfrentar e levantar minha voz aos abusadores de plantão. Se gritam comigo, grito mais alto. Sei que nem sempre é possível fazer isso, visto que homens contrariados se tornam muito agressivos, matam, estupram, humilham, mas nas vezes em que isso for possível, devemos levantar nossas vozes sim. Irão nos chamar de loucas, vagabundas, irão nos ameaçar, irão nos diminuir, porque a violência é o argumento de quem não tem argumentos, mas iremos nos levantar, por mais cansativo que isso possa parecer.

Deixo aqui páginas e textos que são úteis a todos que desejam uma sociedade mais justa para quem está vindo depois de nós.

http://www.bbc.com/portuguese/geral-39161311


https://www.facebook.com/casadamaejoannaCDMJ/

https://www.facebook.com/thinkolga/?hc_ref=NEWSFEED

https://www.facebook.com/revistaazmina/

https://www.facebook.com/NaoKahlo/

http://minasnerds.com.br/2017/01/31/voce-ja-e-feminista-ainda-bem/

http://www.onumulheres.org.br/noticias/em-todo-o-mundo-as-mulheres-ganham-menos-que-os-homens/

http://interactive.unwomen.org/multimedia/infographic/changingworldofwork/en/index.html

Brasil é o 5º País em assassinato de mulheres
de 2003 a 2013 subiu em 54% o assassinato de mulheres negras
527 mil estupros acontecem por ano, estima-se que apenas10% sejam notificados
4,8 assassinatos de mulheres são cometidos a cada 100 mil habitantes. É o dobro da média mundial
O que dá 13 femicídios por dia
De 15 a 29 anos é a idade mais perigosa para se ser mulher no Brasil
Metade dos assassinatos é cometido por familiares
70% dos estupros é cometido por homens do circulo de afeto da vítima: namorados, conhecidos, colegas de trabalho, parentes
70% das vítimas de femicídio são crianças e adolescentes
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